Sobre André Serrano

Graduando em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), membro da Confraria dos Bardos, escritor em formação. Tem gosto por Literatura Fantástica, noites frias e sobretudo Café - forte, amargo.

O Omelete Poético de Marcos Tavares

[Comentário ao poema que segue]

POETÍLICO
 a José Maria Trazzi 

Bebe, o minúsculo poeta, para escrever
poemas que de um alto momento falem.
Trôpego, a almejada inspiração
e o caminho de casa perde.
Já não há poesia na minguante lua
e a rua não lhe rima com os pés.
Ao sol, de há muito recolhido
ao sono, embalde busca-o, pálido.

À noite os bardos são bardos
e tem o vate a cor dos olhos
da amada que nunca o espera.
Qualquer palavra, sôfrega embora,
é áurea chave buscada a custo,
com que, por certo, sonha no Olimpo
algum lugar abrir à musa.
Apesar de plúmbea nuvem sobre
coroa de louros, sua, então pairando.

E, poeta sem beira nem hora,
entre goles de aguardente e bocejo,
com algazorra de pardais acorda
para o sol que, clara gema, agora
em novo horizonte dia nasce,
de poema sideral verso apenas.

24-09-1982

O poema-etílico ou, sob efeito do álcool, o poetílico pode ser encontrado no livro Gemagem, do escritor capixaba Marcos Tavares. Em suas ruminações (ou o que chamei de “omelete poético”), Marcos Tavares vai cozinhando inúmeros trocadilhos, formas e recursos de estilo.

Essa ideia, a do trabalho com a linguagem, confirma-se nas palavras do crítico Oscar Gama, quando ele afirma que os escritos “tavários” prezam o jogo de idéias e de palavras. Os sentidos são construídos com paródias de ditos populares e frases feitas: “À noite os bardos são bardos” lembra-nos “À noite os gatos são pardos”. O poeta “sem beira nem hora” nada mais é do que um poemador “sem eira nem beira”, mas que “perde a hora” por conta da embriaguez. Igualmente curioso, com uma boa dose de humor, é a epígrafe do livro, atribuída ao folclore local: “Sou capixaba da gema,/capixaba da gema do ovo.”

Outra característica curiosa encontrada no poema é a fixação pelos opostos. No Poetílico, a inspiração é perseguida por toda a noite, passando pelas mais altas esferas – as musas e o Olimpo -, mas também pelos  pequenos passos do bardo (poeta, vate) que, cambaleantes, não “rimam” com a rua. “De poema sideral verso apenas”, a busca é incessante, a perfeição está quase lá, mas apenas o verso, o avesso, o oposto, fica na página.

Marcos Tavares, a certa altura, no prefácio de Gemagem diz que “não pode haver poeta sem lua”. O “minúsculo poeta”, no entanto, não consegue escrever nem sóbrio, nem ébrio, os poemas que “de um alto momento falem”. E sonha, ou de-lira, com a “coroa de louros, sua, então pairando”. De fato, vivemos tempos minguantes de poesia… Cadê a lua?

O autor de Gemagem foi membro do Grupo Letra. Tal grupo lançou as sete edições de uma revista homônima, a qual teve parte na divulgação de importantes nomes de nosso cenário literário atual. Numa coedição carioca-capixaba, Marcos Tavares publicou em 1987 o livro de contos No escuro, armados (alguns destes contos podem ser conferidos no link: http://www.estacaocapixaba.com.br/literatura/prosa/contos-do-livro-no-escuro-armados/). Além disso, realizou oficinas literárias no interior do Estado do ES. Acreditamos que seus esforços, sua posição ativa na literatura capixaba, mostram-nos que devemos buscar a “lua cheia”. A Confraria dos Bardos, “à noite”, persegue metaforicamente esse “novo horizonte”, tal como o protagonista do Poetílico. Sendo assim, utilizamos desta pequena inversão (licença poética, caro Tavares): “Do verso apenas poema sideral”.

(Texto por André Serrano)

NOTA: Em conversa com o autor. Conseguimos uma breve explicação sobre a dedicatória do poema:

Esse poemeto dediquei-o a um então contemporâneo do tempo de nós estudantes na UFES(1980-1984): José Maria Trazzi, estudante de Jornalismo. Este chegou a ser editor de jornal em Aracruz(ES), atuou na Radio Universitária e em A Tribuna. Faleceu prematuramente, talvez aos 45 anos, vitimado por câncer. Era ele um amante das Letras e um grande incentivador meu (corridas pedestres e incursões literárias). (MT)

Referência: TAVARES, Marcos. Gemagem. Flor&Cultura. Vitória, 2005.