Da gaveta com “Eduardo Selga”

Eduarddo

Eduardo Selga nasceu em 1968 no Rio de Janeiro. Contista, professor de Língua Portuguesa, mantém o blog http://papeisamesa.blogspot.com.br. De vez em quando consegue publicar algum artigo ou conto na imprensa capixaba.

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PESADELO DOMÉSTICO

Acordou como se estivesse no interior dum pesadelo do qual fosse impossível escapar. Sofreguidão. Tateou-se, esquadrinhando a certeza de existir. Parecia-lhe tudo em ordem, exceto pelo tormento. Mesmo acordado ainda o sentia. Mas não percebeu que, fragilmente erguido de modo a conseguir algum ar menos fantasmagórico, seu corpo insistia deitado e ainda sonhando imagens tão funestas que se agitava, a procurar uma fresta por onde fugir; também não enxergou: o quarto não era o dele, onde se abandonara numa noite qualquer do passado (exatamente quando? Não conseguia se lembrar). Há muito, muito tempo atrás. Não viu a ruína em que tudo estava. Tábuas na janela, réstias frágeis demais para dissolver a penumbra cremosa, embora mostrassem lindamente a poeira a flutuar suspensa. Excrementos, ratazanas, o fedor que só o abandono sabe.

Nada disso estava nítido para ele, ainda agoniado tão imensamente que sentia jorrar a enxaqueca de outrora. Há quantos anos mesmo ela não mostrava as garras? Claro, mero ilusionismo psicológico, pois o corpo continuava lá, estirado, sonhando. Mesmo assim a náusea tomou conta, causou calafrios. E tudo girava. Mais. Mais ainda. A tal ponto que teve a nítida sensação de vomitar, mas não apenas os líquidos e sólidos característicos dessa trovoada que nasce no estômago: seus miolos pareciam sair pela boca, rolavam pelo assoalho como almôndegas, formando uma pasta, um chantili de imagens infantis. Tentou correr, mas escorregou num vazio que se abriu no chão. Um não mais acabar de fundura, cenas antigas e aos pedaços acompanhando-o à medida que ele desmoronava.

Quando o abismo chegou ao fundo, ele se pôs a caminho do banheiro, embora as ideias ainda meio estateladas. Era preciso fazer a higiene matinal. Dona Soledade fritava seus sonhos para o café, sisuda e aborrecida com as perguntações dum menino agarrado à saia, dedo na boca. Ah, um pontapé neste guri… Só porque a gente é avó não significa ter que tolerar uma impertinência destas. Aí eu morro, desço à sepultura de novo, nem vai se lembrar de mim. Como se não bastasse tudo o que deixei de fazer nesta vida rameira!

Certamente não entreviu sua falecida avó e seus resmungos, pela indiferença com que transpôs o corpo dela, apoderou-se do banheiro trancando a porta. Mas o menino, pelo silêncio súbito acompanhado de sorriso, pareceu enxergá-lo. Teria escovado os dentes, água no rosto, mas recuou por causa do susto: ao procurar-se no espelho, cadê eu?

No quarto um pavor surdo, feito de gestos apenas (como se estivesse caindo numa ribanceira): seu corpo ainda tentava acordar do pesadelo.

Da gaveta com “Renata Vitorino”

Renata

Renata Vitorino é aluna do curso de psicologia, e gosto de escrever sobre o cotidiano. Não segue uma tendência fixa, pois seu humor muda frequententemente. 

Gaya

O cigarro rolava pelo chão, encostava-se à parede e voltava lentamente. Depois rolava outra vez e repetia isso, logo ali, a centímetros do meu braço que pendia até o chão.

Acordei assim, um pouco tarde, o calor insuportável me destilando. O ventilador só me valia como diversão, suas pás eram lentas e barulhentas, mas me fizeram ver onde havia caído o último cigarro que eu perdera antes de cair em sono profundo. Por longos meses não consegui dormir profundamente. Agora em mim o sentimento de alívio e o ardor da paz que não sentia desde agosto.

Agosto, quando ela leu em voz alta por todo o caminho de Nova Delhi a Gaya. Ela sabia que eu nunca mais esqueceria a sua voz, ela sabia que sempre que eu fosse dirigir pela manhã, ou ao por do sol, sempre que o rádio do carro não tocasse, sempre que eu estivesse perdido, sempre.

Por isso, por saber que eu nunca mais poderia estar na presença de mim mesmo sem ver em meus olhos, os olhos dela ao espelho. Por saber que por aquelas palavras ela se injetaria em mim como uma transfusão e seria em mim o eu que sou. Porque ela me cobraria todas as minhas falhas e seria em mim uma consciência e um sonho, uma pausa e um arfar de peito. Por isso leu por todo o caminho. Porque sabia que eu nunca esqueceria aquelas estradas confusas, aquelas paisagens que me respondiam mas que me desdenhavam, que eram para mim como um professor que nega ao aluno o conhecimento de si mesmo para assim testar seu gênio auto-destruidor. Eu sempre seria comparsa daquelas léguas que me guiaram antes até ela, porque guiaram ela até mim. Porque me jogaram no meio do todo que ela se fez ao meu redor.

Lia sempre que acordávamos e o frio fazia volta em nossas orelhas, mas lia somente depois que eu acionava o motor. Somente em movimento. Ela sabia que eu nunca mais poderia estar parado. Ela sabia que todo motor traria sua voz rouca e infantil e me faria vibrar e me deslocaria. Ela sabia que me atirava ao futuro, ao incerto, à surpresa. Ela sabia que seríamos retos, que seríamos longos. Que eu seria procurador eterno de todo aquele sabor, em todo grão de poeira, em todo orvalho da manhã.

Assim que avistamos as primeiras ruas de Gaya, ela cerrou o livro e o atirou pela janela. Meu coração explodiu como milhões de sóis. Então me fotografou sob a luz difusa daquela tarde cinzenta.  Na manhã anterior, enquanto comia chapati num pequeno hotel onde passamos a noite observando onde estaria Saturno, ela ficara sabendo que astronautas americanos haviam pousado na lua dias antes. O mundo todo sabia desde o dia 20 de julho, menos nós. De nada nos importava o mundo, estávamos nós, pousando em nós mesmos. Estávamos pensando no que escrever em nossas próprias peles. Éramos nosso próprio jornal. Líamos de nossas próprias línguas.

E ela então disse o que o mundo não sabia o que só nos dois saberíamos. O solo onde somente nós dois poderíamos pisar e onde o mundo nunca chegaria. Um lugar, um atalho que nos levava direto a nós mesmos, uma estrada perdida entre nossos olhos onde brotavam as fontes de nossas almas.

Enquanto meu coração roncava como um motor eu busquei o livro pelo retrovisor e ela já trocava o filme da câmera. Ela agora se comunicava com o estalo do obturador. Muito pouco ouvi da sua voz até abastecermos. Ela desceu, abriu um sorriso, como se o mundo se abrisse diante de meus olhos, e disse que já me vira ali daquele jeito encostado no capô do carro com aquela mesma bolsa e o cabelo atrapalhado tomando nota de alguma coisa na caderneta. E fez à francesa: “Déjà vu, mon chéri.”

Eu não podia acreditar, mas o sorriso dela me dizia a mesma coisa. Eu que já o vira de tantas formas sempre iguais. Sempre o mesmo de mil formas diferentes, agora o entendia como se o único sentido fosse estar ali naquele exato momento. Como uma fotografia que existisse em si mesma e que guardasse em si todo o meu passado e todo o meu futuro. Como um único momento em que o turbilhão de voltas do universo se mostrasse infinito. Estático, mas vibrando, rápido, na simultaneidade de todas as parcelas de nossa existência condensadas numa só partícula. Como a pedra essencial onde foram fundadas todas as estrelas. Eu não precisava de mais nada para entender. Eu sabia que nada seria novamente igual. Eu sabia que nunca mais dormiria em paz. Eu havia ido longe, muito além de todas as expansões imagináveis.

Nenhuma outra visão me trouxe de volta de onde ela havia me atirado, porque ela se projetou sobre mim e desceu com o peso de todas as galáxias. Caímos. E todas as portas do templo Vishnupad estavam fechadas para nossa queda. Nenhuma gota do rio Falgu se evaporou naquele dia e o templo Mahabodhi se ergueu até onde o céu se torna azul, porque a tarde já não era mais cinza.

Nunca quis saber o que diziam as últimas palavras de Crime e Castigo. A consciência de Janny jamais me interessaria. Nenhuma culpa, nenhum perdão, nenhum crime. Minha consciência ia além de uma flor de lótus, ia além do próprio tempo, do próprio sorriso.

Eu havia esquecido o meu isqueiro dentro do nosso laboratório antes de viajar para a Índia. Eu me lembrava porque eu acendi um cigarro lá dentro só pra testar o efeito que faria na foto, uma brasa perdida no meio de toda aquela vermelhidão. Depois de nossa viagem a Goya parece que acordamos em casa como se um pedaço de nossa história tivesse sido editada a gilete. Ou voamos direto de um sonho ou eu não andava muito interessado em Nova Delhi e seu aeroporto e seu trânsito. Pra escrever, precisava me concentrar e começar logo. Precisava de um cigarro.

Eu não sei se a luz de alerta estava queimada. Eu precisava escrever, eu nem havia dormido. Com o café na mão abri a porta e uma rajada de luz vermelha me atingiu nos olhos. Eu deixei a xícara cair: cacos e café. Boa parte do trabalho fotográfico se perdeu. As melhores imagens se perderam. Ela estava de avental me olhando. Ficamos assim durante sete segundos nos olhando por meses. Depois de Goya, nada seria frustrante, nada seria paz. Hendrix seria nosso movimento. As explosões do mundo não alcançariam nossos ouvidos. Ficamos ainda em queda livre por meses. Não foi a Índia, nem nada na estrada, que não fossem só lembranças. Éramos nós mesmos como um bloco denso, coeso. Mas éramos leves como uma pluma que se lança ao vento terral.

Somente hoje quando encontrei o cigarro que dançava com o vento pude sentar e escrever. Somente hoje ela colocou um filme na câmera e pôde rever com paciência as fotos que não se perderam. Somente hoje pudemos entender que nada precisava ser escrito ou fotografado. Somente hoje entendemos que todas as palavras serão escritas apenas no plano mais extenso dos nossos tímpanos onde caberão apenas todas. E todas serão sem fim. E todas as imagens serão reveladas no fundo de nossas retinas e apenas ali serão sobrepostas. Não precisamos das fotos, nenhuma foto nos trará de volta de nós mesmos. Penso que nada, a não ser nosso desencontro nos abandonará ao reencontro. Nunca saberemos, hoje não. Não depois desse cigarro que vai e volta que foi e voltou que irá e retornará. Não, depois de vislumbrarmos a dança do Universo diante de nossas almas boquiabertas.

Eu queria saber se nos encontraríamos de novo. Porque agora já nos éramos encontrados. E ela disse: “Em outra vida, mon chéri. Mas, por favor, não se apresse. Você chegará primeiro. Doeria-me esperar 15 minutos por você.”